A Épica jornada da Anapolina, do abismo à elite Nacional
A Épica jornada da Anapolina, do abismo à elite Nacional
No início da década de 1970, o futebol profissional em Anápolis respirava por aparelhos. O licenciamento da Associação Atlética Anapolina, iniciado em 1971, parecia o capítulo final de uma história que muitos acreditavam ter chegado ao fim. No entanto, a trajetória da popular "Rubra" reservava uma reviravolta marcada pelo sacrifício humano e por uma obstinação que desafiou todas as probabilidades.
A reconstrução do clube foi viabilizada pelo esforço memorável de figuras que se tornaram eternas. A primeira delas foi Iberê Nazareth Dujardin, um símbolo de dedicação integral que fundou, jogou, presidiu e até cuidou da rouparia do clube. Ao seu lado, a obstinação de João Gonçalves de Oliveira foi o combustível vital; ele financiou o retorno da equipe ao Campeonato Goiano com recursos particulares, impactando o orçamento de sua própria família e transformando sua residência em alojamento para abrigar, alimentar e vestir os atletas.
Antes desse retorno definitivo, a prefeitura havia forçado uma fusão em 1970 entre os rivais locais Anapolina, Anápolis Futebol Clube e Ipiranga Esporte Clube, gerando o Grêmio Esportivo Anapolino. O projeto adotava as cores azul e branco, mas revelou-se um grande fiasco por não pacificar os dirigentes e não ser aceito pelo público. O malfadado Grêmio Anapolino durou apenas duas temporadas, sendo desfeito em 1972. Enquanto o Anápolis tentava se manter de pé sem a força de antes e o Ipiranga abandonava os gramados profissionais após breves tentativas para viver como clube social, quem prevaleceu no médio prazo foi a antiga terceira força rubra.
Afrânio Rodrigues Seixas, presidente da Rubra, reafirma a resistência do clube em meio às dificuldades da década de 1970.
Fonte : Revista Placar 04/02/77
Após o hiato de licenciamento, a Anapolina voltou oficialmente aos gramados em 1975, ressurgindo como uma fênix. A campanha foi avassaladora: a equipe terminou em sexto lugar no Goiano, impondo um autêntico "suadouro" nos grandes da capital, vencendo o Goiânia e empatando com Goiás e Vila Nova. O desempenho calou os críticos e colocou o prefeito Jamel Cecílio contra a parede, que prometeu ampliar o Estádio Jonas Duarte caso o clube provasse sua força em campo.
A partir do final de 1977, a Rubra iniciou um novo patamar de profissionalismo. Foi quando o projeto de ascensão da Anapolina ganhou contornos de gigante com a chegada do Dr. Pedro Canedo. Reconhecido como um dos maiores dirigentes do futebol goiano no final da década de 70 e nos anos 80, Canedo uniu forças a Afrânio, Edmilson Torquato, Iberê Nazareth Dujardin para estruturar o time que disputaria o Campeonato Brasileiro de 1978. Sua capacidade de gestão e articulação trouxe para a Manchester Goiana craques inesquecíveis.
As reportagens detalham a cobrança sobre o prefeito Jamel Cecílio após os jogadores cumprirem o desafio em campo.
Fonte: Revista Placar - 02/09/77
O ano de 1978 foi um marco para a Associação Atlética Anapolina, quando a equipe disputou pela primeira vez a elite do Campeonato Brasileiro. A "Xata" fez história ao enfrentar gigantes nacionais no Estádio Jonas Duarte, consolidando sua reestruturação e ganhando notoriedade no futebol brasileiro.
Inauguração da arquibancada descoberta do Estádio Jonas Duarte em 26 de março de 1978.
Fonte : Anápolis na Rede / Correio do Planalto
O primeiro grande feito da Associação Atlética Anapolina ocorreu em 26 de março de 1978, data em que o clube estabeleceu o recorde histórico de maior público do Estádio Jonas Duarte, em Anápolis.Naquela ocasião, 19.640 torcedores compareceram para assistir ao confronto contra o Corinthians, válido pelo Campeonato Brasileiro. A partida histórica terminou em um empate sem gols (0x0). Escalada pelo técnico Jaílton Santos com Moacir, Wilson, Gideone, Deiróti, Ferreira, Roberto Chaves, Armando, Sinamar, Paghetti, Maurício e Raimundinho, a Rubra barrou o time de Jairo, Wladimir e Basílio, assegurando o placar de zero a zero. Posteriormente, em 14 de maio de 1978, pela última rodada da primeira fase, foi a vez de encarar o Santos comandado por Chico Formiga. Sob o apito de Júlio César Cosenza, a Anapolina abriu o placar logo aos 9 minutos do primeiro tempo com um gol do atacante Sinamar, cedendo o empate por um a um aos 34 minutos com gol de Joãozinho, terminando a partida sob o apoio de mais de seis mil pagantes no Jonas Duarte.
A trajetória que levou a equipe ao cenário nacional é rica em detalhes. A CBD surpreendeu a todos ao fazer um convite inicial para que a Anapolina disputasse o Campeonato Brasileiro. A notícia colocou a cidade em estado de euforia e deu início a uma corrida contra o tempo: obras em ritmo frenético passaram a ser executadas 24 horas por dia para ampliar a capacidade do Estádio Jonas Duarte de 5 mil para 30 mil torcedores. No entanto, para carimbar o passaporte e ter o direito legítimo de representar o município, foi necessário disputar um torneio seletivo exigido pelos rivais locais. A consagração definitiva veio no dia 19 de agosto de 1979: com uma vitória maiúscula por 3 a 1 sobre o Anápolis Futebol Clube dentro do Jonas Duarte, a Rubra conquistou o título da seletiva e assegurou a vaga para representar a cidade de Anápolis no principal certame do país.
A transformação do Estádio Jonas Duarte em ritmo ininterrupto para a estreia da Anapolina no Brasileirão.
No inchado Brasileirão de 1979, o rendimento nacional subiu de nível. Na primeira fase da competição, a equipe sobressaiu-se ao bater Sergipe, Avaí, Joinville e o rival Goiânia, além de aplicar uma goleada por 4 a 0 sobre o Confiança. Ao avançar para a etapa seguinte, o grupo cruzou com camisas mais pesadas e o rendimento caiu, mas ficou marcado o orgulho mítico de ir até Porto Alegre e arrancar um empate por zero a zero dentro do Beira-Rio contra o fortíssimo Internacional — que terminaria aquela edição como o único campeão invicto da história do futebol brasileiro.
A reformulação do Brasileirão feita pela recém-criada CBF para 1980 reduziu para dois o número de vagas do futebol goiano na elite e colocou a Anapolina na categoria de acesso, a Taça de Prata. Primeira colocada em seu grupo na primeira fase, a Rubra – outro apelido do clube – avançou para disputar a promoção à Taça de Ouro contra o Sport. Mas após um empate em 1 a 1 no Jonas Duarte, o Leão venceu por 3 a 0 no Recife e subiram para o torneio principal. No ano seguinte, porém, os goianos chegaram mais longe.
A trajetória de sucesso atingiria um novo ápice em 1981, sob a presidência de Edmilson Torquato. Considerado um dos maiores presidentes da história da instituição, Torquato imprimiu uma visão administrativa e estratégica de excelência. Sua gestão foi o elo final para transformar a Rubra em uma força inquestionável no cenário nacional, levando a Anapolina ao histórico vice-campeonato da Taça de Prata de 1981 e consolidando o trabalho iniciado pelos fundadores, passando pela visão do Dr. Pedro Canedo e culminando em um time que era, acima de tudo, o orgulho de toda uma cidade. De Iberê a Torquato, a história da Anapolina não é apenas sobre futebol, é a lenda viva da "Xata com xis", construída com o suor de abnegados e a paixão de um povo.