O Nascimento
Em uma edição histórica datada de 8 de janeiro de 1948, o jornal O Anápolis publicou em sua manchete principal de esportes o título definitivo: "Associação Atlética Anapolina".
RECORTE de jornal de 08 jan. 1948 com a manchete principal "Associação Atlética Anapolina".
O texto jornalístico de João Asmar registrou para a posteridade a resposta oficial do esporte local à crise:
"Em resposta à teimosia de certos agarrados na diretoria do Anápolis E. C., por elementos conhecidos nos meios desportistas locais, no dia 1º do corrente [1º de janeiro de 1948], foi fundado um novo clube em Anápolis, o qual tomou a denominação de Associação Atlética Anapolina."
A Onda de Apoio Popular e as Cores Alvirrubras
Há muito tempo o público amante do futebol em Anápolis ansiava por uma entidade organizada, moralmente limpa e estruturalmente capaz de corresponder ao nível de progresso que o município experimentava. À simples difusão da notícia sobre a fundação, a sociedade prestou total solidariedade
Foi também neste momento que se deliberou sobre a armadura que os atletas envergariam. Por meio de votação democrática realizada entre os fundadores da nova entidade, foram escolhidas as cores vermelho e branco para compor as camisas e o emblema oficial do clube. Os estatutos preliminares para a concretização das bases do novo grêmio foram concluídos e entregues à elaboração do Dr. Edson Hermano, conhecido entusiasta do esporte no Estado de Goiás.
A Assembleia no Ginásio São Francisco
Uma semana após o anúncio da fundação, a edição de 15 de janeiro de 1948 do jornal O Anápolis estampava a manchete "Assentadas as Bases", destrinchando os passos burocráticos e legislativos.
Recorte de jornal O Anápolis, publicado em 15 de janeiro de 1948, com a manchete “Assentadas as Bases”.
No dia 10 de janeiro, nas dependências do tradicional Ginásio São Francisco de Assis, foi realizada a assembleia geral na qual foram tratados os assuntos de principal importância e aprovados os estatutos que regeriam a instituição durante toda a sua vida ativa.
O jornal destacava que o trabalho de consolidação da Anapolina mostrava-se extremamente bem-orientado, visando explorar o esporte juvenil e pavimentar um futuro onde os moços desfrutariam de uma "casa rigorosamente bem-feita". A mobilização era tão intensa que o contingente de atletas inscritos crescia vertiginosamente, englobando também o basquete, o voleibol e o atletismo, tendo o futebol como eixo de maior relevo.
O Drama da Falta de Campos apropriados
Entretanto, o maior gargalo enfrentado pelo esporte anapolino na época residia na ausência completa de praças esportivas adequadas. Sob o título "A Falta de Campos", João Asmar denunciava que nada menos que seis clubes locais disputavam o direito de utilizar o pseudoestádio municipal (o Estádio Manoel Demóstenes). O cronista desabafava:
"Assim, Anápolis, a cidade progressista, é talvez a mais pobre de todas as outras no que concerne ao esporte. Um estádio que só tem uma péssima cancha para futebol é o único local que serve para campo de atividade do Anápolis E. C., da União Esportiva Operária, do Flamengo, do Ipiranga, da Goiaz Atlética dos Ferroviários, do Brasil F. C. e agora da Associação Atlética Anapolina. Não é isso uma calamidade?"
Essa escassez logística uniu a comunidade nos anos seguintes para apoiar a edificação de praças esportivas dignas, impulsionando a Rubra a superar os desafios iniciais. Diante disso, uma nova reunião importante no Ginásio São Francisco foi marcada para o dia 17 de janeiro para ventilar a escolha da diretoria provisória a ser votada em assembleia geral no dia 26 do mesmo mês.
Primeiros Passos da Anapolina: A Posse da Diretoria Fundadora (1º de Fevereiro de 1948)
A transição ganhou contornos definitivos na edição de 1 de fevereiro de 1948. Sob o lema de superação "Sai pantera, entra fênix", a Associação Atlética Anapolina estruturou seu colégio eleitoral. Conforme os estatutos elaborados e aceitos, reuniões anteriores escolheram quinze sócios efetivos e cinco suplentes para eleger a primeira diretoria legal para reger os destinos do clube pelo período de um ano.
Com a participação ativa de figuras de enorme destaque e prestígio na sociedade como Gisberto Ferraresi, José Elias Isaac, Moisés Roriz Filho, João Pedro Neto, Ângelo Carnielo, Iberê Dujardin, Dr. Edson Hermano, Odir da Costa Ferreira, José Abdalla, João Asmar, além de toda a família Puglisi e corpo de atletas, decidiu-se manter a linhagem tradicional: as cores do novo clube seriam rigorosamente as mesmas do antigo Annapolis Sport Club, com calções brancos e camisas vermelhas.
A Discussão Interminável
Com as cores definidas e a diretoria empossada, os dirigentes da Anapolina depararam-se com um novo e complexo desafio in 1948: a criação do emblema oficial que os atletas carregariam no peito.
As reuniões para tratar do assunto tornaram-se longas, exaustivas e apaixonadas. Cada dirigente trazia uma sugestão diferente, esboços eram desenhados e propostas eram colocadas à mesa. Analisados os prós e os contras de cada projeto, nenhuma ideia prosperava ou alcançava a unanimidade. Essa discussão interminável já se estendia, gerando angústia e cansaço em todos os participantes, que viam o tempo passar sem que um acordo fosse selado.
Versão 1: O Acaso de Iberê e a Associação Atlética Francana
(Segundo os relatos de Adhemar Santillo)
Já ao final daquela tensa reunião, quando o consenso parecia impossível, a solução veio de onde menos se esperava: do próprio elenco de jogadores. Participando livremente dos debates como o legítimo representante dos atletas rubros, estava o jogador Iberê Dujardin.
Sem que houvesse acordo entre os participantes, Iberê levantou-se de sua cadeira para deixar a sala de reuniões. Ele vestia, casualmente, uma camiseta da Associação Atlética Francana, tradicional equipe da cidade de Franca, no interior de São Paulo.
No momento em que Iberê se levantou, o escudo estampado em sua camisa paulista despertou imediatamente a atenção de um dirigente presente. O design era limpo e imponente: um círculo maior que abrigava, em seu interior, três círculos menores dispostos de forma simétrica, cada um contendo uma letra da sigla do clube.
O dirigente interrompeu a saída do jogador e apontou para o seu peito, mostrando aos demais a perfeição geométrica daquele design. O impacto visual foi imediato. A ideia foi acolhida com entusiasmo e aprovada por aclamação unânime por todos os participantes, encerrando de vez a angústia da fundação do símbolo.
O desenho foi adotado exatamente nos mesmos moldes da Francana, fazendo-se apenas uma única e vital alteração de identidade: a letra "F" (de Francana) foi substituída por mais um "A". Nascia assim o icônico escudo com os três círculos contendo as letras A.A.A. (Associação Atlética Anapolina).
A Referência Carioca e a Força do América do Rio
Contudo, a rica história da Rubra ganha ainda mais força quando analisamos a evolução dos seus símbolos oficiais. Existe outra vertente histórica, baseada nos registros visuais e na própria herança estética do clube, que aponta para uma influência tão real e concreta quanto a primeira: a inspiração vinda das terras cariocas.
Segundo essa linha histórica, a verdadeira fonte de inspiração para a identidade visual da Anapolina veio do Rio de Janeiro, então capital federal. Os fundadores da equipe goiana teriam mirado no imponente e tradicional escudo do América Football Club, que na época figurava como um dos times mais populares, queridos e bem-sucedidos do país.
A semelhança na estrutura geométrica e o impacto visual do América carioca serviram de norte para os dirigentes. Ao fundirem a essência das letras entrelaçadas do time do Rio com o formato proposto na reunião, o design foi perfeitamente adaptado para abrigar o orgulho anapolino. Essa versão deixa claro que a Anapolina nasceu sintonizada com o que havia de mais moderno no futebol brasileiro, transformando grandes referências em um símbolo puramente local.
A Imortalização do Símbolo
O cruzamento dessas duas histórias — a dinâmica dos círculos da Francana e o DNA estético inspirado no glorioso América do Rio de Janeiro — prova que o escudo da Anapolina não nasceu ao acaso. Ele foi o resultado do olhar atento de desportistas que sabiam reconhecer a grandeza de outras praças esportivas para construir a identidade da nossa Rubra.
Os três círculos entrelaçados com as letras A.A.A. tornaram-se muito mais do que uma forma geométrica; transformaram-se na identidade visual da eterna Rubra. Um símbolo real, nascido de grandes inspirações, que gerações de torcedores passariam a carregar no lado esquerdo do peito e que os atletas defenderiam com a vida nos gramados do Brasil
A Estruturação da Diretoria
Cumprindo a promessa da edição anterior, o jornal O Anápolis, em 8 de fevereiro de 1948, divulgou o organograma definitivo da primeira diretoria eleita da Associação Atlética Anapolina. Sob a crônica de João Asmar, o periódico imortalizou o corpo de cidadãos dedicados que assumiam a responsabilidade de guiar o clube em seu primeiro ano de existência. A montagem desse corpo diretivo robusto foi uma demonstração de força institucional, afastando qualquer marca de amadorismo e garantindo plena segurança jurídica à nova entidade.
À frente do projeto, consolidando-se como o primeiro presidente oficial da história do clube, erguia-se Gisberto Ferraresi. Para auxiliá-lo, o conselho elegeu o Dr. José Elias como primeiro vice-presidente e Moisés Roriz Filho como segundo vice-presidente. A salvaguarda documental ficou sob os cuidados de João Gomide (secretário-geral), João Pedro Neto (primeiro secretário) e Alípio Ribeiro (segundo secretário). As finanças foram blindadas pelo tesoureiro-geral Ildefonso Castanheira, auxiliado por José de Oliveira Campos (primeiro tesoureiro) e Ângelo Carnielo (segundo tesoureiro).
Por fim, o departamento técnico foi confiado ao Dr. Edson Hermano, nomeado diretor-geral de futebol. Sob sua batuta, o expressivo contingente de atletas inscrito nas semanas anteriores seria devidamente canalizado, iniciando os ensaios práticos e moldando o elenco que ostentaria, pela primeira vez nos gramados, a armadura vermelha e branca da Rubra.
Recorte do jornal O Anápolis de 08/02/1948, contendo a nota oficial da eleição da diretoria sob o título 'A ASSOCIAÇÃO ATLÉTICA'
Os primeiros meses de vida da Associação Atlética Anapolina foram marcados por intensa movimentação administrativa e esportiva. Fundada em janeiro de 1948, a nova agremiação rapidamente conquistou espaço na imprensa local e passou a despertar grande expectativa entre os amantes do futebol de Anápolis.
Ainda em março daquele ano, a diretoria buscava organizar os primeiros compromissos da equipe. Em edição publicada no dia 25 de março de 1948, o jornal O Anápolis anunciou com destaque a realização da estreia do clube para o dia 28 de março, em um amistoso contra o poderoso Atlético Clube Goianiense, então considerado uma das principais forças do futebol goiano e vencedor do torneio da capital (campeonato goiano em 1947).
A notícia apresentava a Associação Atlética Anapolina como o mais novo grêmio esportivo da cidade e ressaltava a curiosidade do público em conhecer o elenco alvirrubro. A expectativa era tão grande que o jornal afirmava que o confronto absorvia toda a atenção do público esportivo anapolino. Entretanto, apesar do anúncio e da repercussão gerada, não foram encontrados registros posteriores confirmando a realização da partida. Dessa forma, tudo indica que o jogo tenha sido cancelado, adiado ou não tenha ocorrido conforme o planejado, tornando-se um dos primeiros mistérios da história da Rubra.
Poucos dias depois, a Anapolina alcançaria uma conquista fundamental para sua consolidação institucional. Em 8 de abril de 1948, a imprensa local divulgou a filiação da Associação Atlética Anapolina à Federação Goiana de Futebol, por meio da Portaria nº 72, assinada pelo presidente da entidade, Waldyr Castro Leite.
A filiação foi concedida em caráter provisório, condicionada à adequação dos estatutos do clube às exigências da legislação esportiva vigente. Para isso, a diretoria recebeu um prazo de sessenta dias para promover as modificações necessárias e submetê-las à aprovação da Federação. A medida representava um importante reconhecimento oficial da nova agremiação e abria caminho para sua participação no futebol organizado do estado de Goiás.
Com a situação administrativa encaminhada, a atenção voltou-se para os gramados. Em 18 de abril de 1948, a cidade viveu um momento histórico: a estreia da Associação Atlética Anapolina diante de sua torcida. O adversário escolhido foi o Ferroviário Esporte Clube, da cidade mineira de Araguari, em uma partida amistosa interestadual realizada no Estádio Dr. Demóstenes.
A imprensa destacou o esforço da diretoria para trazer um adversário de outro estado e valorizar o evento. O Ferroviário era apontado como uma equipe experiente e respeitada na região do Triângulo Mineiro, o que tornava o desafio ainda mais significativo para a jovem equipe anapolina.
A expectativa foi correspondida dentro de campo. Conforme relatado pelo jornal O Anápolis em sua edição de 22 de abril de 1948, a estreia da Anapolina foi coroada com uma importante vitória por 3 a 2. A partida foi intensa e bastante disputada. Os visitantes abriram o placar, mas a equipe anapolina demonstrou personalidade e capacidade de reação, conseguindo virar o marcador e alcançar uma vantagem de 3 a 1.
O triunfo teve um significado que ia muito além do resultado esportivo. A vitória simbolizava o sucesso dos esforços realizados desde a fundação do clube, fortalecia a confiança da diretoria e dos torcedores e demonstrava que Anápolis possuía uma equipe capaz de representar a cidade com dignidade e competitividade. A Rubra venceu a primeira partida de sua história pela contagem de 3 a 2, com gols de Júlio Púglisi, Leônidas e Picum.
PRIMEIRA FORMAÇÃO DA ASSOCIAÇÃO ATLÉTICA ANAPOLINA
ESCALAÇÃO :
Em pé : Iberê, Juca, Zé lemes, Arnaldo, Petrônio, Tatu e Edson Hermano
Agachados : Alípio, Júlio, Picum, Trator ( Juvenal) e Leônidas.
Treinador : Odir Costa
Assim, entre o anúncio de uma estreia que provavelmente nunca aconteceu, a conquista da filiação federativa e a vitória na primeira partida efetivamente realizada, a Associação Atlética Anapolina começou a construir sua trajetória. Foram semanas decisivas que lançaram as bases de uma história que, ao longo das décadas, transformaria a Rubra em uma das mais tradicionais instituições do futebol goiano.
O ano de 1949 ficou marcado nos registros históricos como o da afirmação institucional e técnica da Anapolina. Com o objetivo de testar suas forças contra os grandes centros do país, a diretoria alvirrubra promoveu partidas amistosas de grande apelo popular no velho Estádio Manoel Demóstenes.
No dia 3 de março de 1949, a Anapolina recebeu o tradicional Bangu Atlético Clube, do Rio de Janeiro. A equipe carioca trazia em sua delegação ninguém menos que Domingos da Guia, reconhecido internacionalmente como um dos maiores zagueiros da história do futebol mundial. O placar final apontou vitória banguense por 4 a 2. O registro fotográfico preservado em imortalizou o esquadrão goiano perfilado ao redor de Domingos da Guia, posicionado ao centro com um arranjo de flores, à frente do pavilhão alvirrubro.
Pouco tempo depois, a Associação Portuguesa de Desportos, de São Paulo, também desembarcou em solo anapolino. Servindo de base para a Seleção Brasileira, a Portuguesa — que contava com astros do calibre de Djalma Santos, Brandãozinho, Simão, Nininho e Pinga — impôs sua superioridade técnica ao vencer por 7 a 2.
Apesar dos reveses contra os gigantes nacionais, o aprendizado converteu-se em soberania doméstica. No mesmo ano de 1949, a Anapolina sagrou-se a primeira campeã oficial do certame municipal instituído pela LAD, erguendo a taça de forma invicta após superar o São Francisco EC na classificação geral.
Antes de se tornar o maior clássico da região, o confronto entre Anapolina e Anápolis Futebol Clube deu seus primeiros passos através de amistosos de alta voltagem no Estádio Manoel Demóstenes. O equilíbrio inicial da década de 1940 traduziu perfeitamente o nascimento dessa rivalidade.
O primeiro grande embate registrado ocorreu em 27 de junho de 1948, em um eletrizante empate por 4 a 4. Meses depois, em 17 de outubro do mesmo ano, o Anápolis impôs uma dura derrota à Rubra por 5 a 1, seguida por um novo empate em 1 a 1 no dia 24 de outubro. No entanto, o troco da Anapolina veio de forma oficial e contundente: no dia 4 de setembro de 1949, pelo Campeonato Citadino, a Rubra aplicou uma goleada de 4 a 0 na casa do adversário. Os números daquela década inaugural fecharam em simetria perfeita, com uma vitória para cada lado, dois empates e exatamente 10 gols marcados por cada equipe.
Na transição para a década de 1950, a Anapolina consolidou aquele que crônicas da época apontavam como o elenco mais poderoso do Estado, estabelecendo uma dinastia imbatível no Centro-Oeste brasileiro. A formação clássica desse período áureo, eternizada na imagem, trazia atletas emblemáticos como Mirim, Juca, Guerrinha, Nego, Iberê, Joãozinho, Gaúcho e Leônidas, que deram ao clube os apelidos populares de "Xata" ou "Madame X".
Foi nessa década que a rivalidade com o Anápolis FC ganhou contornos de ampla soberania alvirrubra, com um histórico acachapante de 7 vitórias da Anapolina, apenas 1 do rival e 1 empate, além de 33 gols marcados pela Rubra contra 16 do adversário.
A sequência de goleadas começou em 4 de junho de 1950, quando a Anapolina venceu por 5 a 1 pelo Campeonato Citadino. No segundo turno daquele ano, em 29 de outubro, as equipes protagonizaram um histórico e franco empate por 5 a 5. Em 1951, o clássico de 10 de junho terminou em 2 a 1 para a Rubra, com gols de Júlio e Zeca Puglisi — triunfo que pavimentou o caminho para outra goleada logo em seguida, no dia 23 de setembro, por mais um sonoro 5 a 1.
A supremacia absoluta foi desenhada ano a ano nos torneios citadinos. Em 1950, o bicampeonato veio com a União Operária ( Anápolis FC) ficando na segunda colocação. No ano seguinte, em 1951, a Rubra superou novamente o São Francisco EC para garantir o tricampeonato.
O ápice dessa sequência histórica foi coroado em 1952. Pelo certame municipal, a Anapolina atropelou o Anápolis por 5 a 1 no dia 20 de julho. Meses depois, na grande decisão em 4 de outubro de 1952, a Rubra derrotou novamente o seu arquirrival por 2 a 1, carimbando o tetracampeonato citadino consecutivo (1949, 1950, 1951 e 1952). O rolo compressor continuou no ano seguinte: em 12 de julho de 1953, a Anapolina aplicou mais um 4 a 1 sobre o rival. O Anápolis só conseguiu respirar em 25 de outubro de 1953, ao vencer por 4 a 3.
A rivalidade local era alimentada por figuras folclóricas. Antes dos jogos, panfletos conhecidos como "folhinhas" circulavam pelas ruas e pelas arquibancadas do Estádio Manoel Demóstenes. Neles, constavam o dia, o mês, o ano e até a fase da lua que supostamente "previam" mais uma derrota do Anápolis FC. O mentor da provocação era Wahib Aidar, empresário, ex-atleta e amigo próximo da influente família Puglisi. Aidar usava de seu espírito cômico para constranger os adversaries antes mesmo do apito inicial. Quando a previsão não se confirmava, a gozação já havia cumprido o seu papel de forma antecipada.
Time tetracampeão de Anápolis. Da esquerda para a direita. De pé : Odir ( Treinador) , Juca, Arnaldo , Mirim, Joãozinho, Lande, Nêgo e Anapolino de Faria ( Presidente). Agachados: Nondas, Gaúcho, Zéca, Guerrinha e Iberê.
Após bater na trave com os vice-campeonatos de 1953 e 1955 para o São Francisco EC, a Rubra retomou o topo da cidade em 1956, celebrando mais um título municipal ao deixar o Anápolis com o vice-campeonato, batendo o tradicional rival por 2 a 1 no Estádio Manoel Demóstenes.
A década de 1960 representou o divisor de águas entre o romantismo do futebol amador e as exigências do profissionalismo moderno. A Anapolina encerrou a era romântica do futebol local com chave de ouro ao conquistar o Campeonato Citadino de 1960, superando o Flamengo FC na tabela, naquele que foi o último torneio realizado sob o estatuto amador na cidade.
O início da década foi difícil no clássico, com o Anápolis vencendo por 1 a 0 em 12 de março de 1961 pelo Torneio Octogonal, e repetindo o triunfo por 2 a 0 em 7 de abril de 1963, já pelo Campeonato Goiano profissional. No entanto, a resposta da Anapolina ficou gravada para sempre como uma das maiores páginas de glória do derby.
No dia 12 de setembro de 1963, em um amistoso disputado no recém-inaugurado Estádio Irani Ferreira — pertencente ao Ipiranga —, a Anapolina impôs a maior humilhação técnica da história do confronto até então, massacrando o Anápolis pelo placar de 6 a 0. Foi a afirmação definitiva do poder de reação colorado.
Pouco antes desse feito, em 31 de agosto de 1963, o futebol de Anápolis havia ganhado contornos profissionais definitivos com a inauguração do próprio Estádio Irani Ferreira Barbosa, em uma partida onde os donos da casa venceram o Uberlândia por 2 a 0.
No dia 10 de abril de 1965, a praça esportiva da cidade foi modernizada com a abertura do Estádio Jonas Duarte. No jogo inaugural, a Seleção de Anápolis enfrentou o São Paulo Futebol Clube. O Tricolor Paulista venceu por 4 a 1, e o jogador paulista Rodarte teve a honra de marcar o primeiro gol da história do estádio.
Já integrada às disputas do Campeonato Goiano, a Anapolina obteve outro feito expressivo em 19 de outubro de 1967. Jogando em Goiânia, a Rubra aplicou outra goleada avassaladora de sua história, vencendo o Goiânia Esporte Clube por 7 a 1, inscrevendo o resultado entre as maiores vitórias de sua trajetória.
Em 28 de novembro de 1969, foi inaugurado o Estádio Zeca Puglise, situado no bairro IAPC. O terreno foi doado pelo médico e torcedor alvirrubro Dr. James Fanstone, em um projeto capitaneado por Adhemar Santillo (então presidente da Liga Anapolina de Desportos) e pelo prefeito Raul Balduíno. O estádio tornou-se, desde então, a sede oficial dos jogos dos clubes da Liga e passou a abrigar as competições amadoras da colônia municipal.
A fama daquele esquadrão ultrapassou os resultados dentro de campo e deu origem a um dos apelidos mais tradicionais da história do clube. Foi justamente durante um dos períodos mais difíceis da instituição que nasceu a expressão "Xata", incorporada para sempre ao vocabulário da torcida anapolina.
Naquele momento, a Anapolina enfrentava sérias dificuldades financeiras. Faltavam recursos para a manutenção do elenco e o pagamento dos compromissos do clube tornava-se uma preocupação constante para sua diretoria. Em uma noite marcada por uma forte tempestade que castigava a cidade de Anápolis, o presidente Wahib Aidar acompanhava uma partida da Rubra sentado na tribuna de honra do Estádio Manoel Demóstenes. Isolado, distante das conversas dos torcedores, refletia sobre os desafios administrativos e as contas que venceriam na manhã seguinte.
Durante a transmissão radiofônica do jogo, o locutor Vilibaldo Alves descrevia a intensidade da chuva aos ouvintes com uma frase que acabaria entrando para a história do clube: “É fogo, torcida anapolina! Cai água em grande quantidade. É chuva com X maiúsculo!”. Apesar das dificuldades enfrentadas fora das quatro linhas, a Anapolina protagonizou uma atuação memorável, derrotando o adversário com raça, dedicação e um futebol envolvente.
Emocionado com o desempenho dos atletas, Wahib Aidar concedeu entrevistas às emissoras de rádio de Anápolis e Goiânia logo após a partida. Ao definir a personalidade daquela equipe, afirmou que a Anapolina era um time extremamente "chato" de ser enfrentado: competitivo, persistente e difícil de vencer. Inspirado pela expressão ouvida durante a transmissão, completou de forma espontânea: “Não é uma equipe chata qualquer. É uma equipe Xata, com X maiúsculo”.
A frase rapidamente caiu no gosto da torcida e passou a identificar o espírito aguerrido da equipe que, mesmo diante das adversidades, encontrava forças para superar seus desafios. O apelido ganhou tamanha popularidade que ultrapassou as fronteiras de Goiás. Durante a Copa do Mundo de 1966, disputada na Inglaterra, uma faixa exibida por torcedores com os dizeres “A Rubra é Xata!” chamou a atenção de jornalistas esportivos de todo o país. A curiosidade sobre a grafia inusitada foi esclarecida pelos cronistas goianos, que apresentaram ao Brasil a história da tradicional alcunha da Associação Atlética Anapolina.
Desde então, "Xata" tornou-se muito mais do que um simples apelido. A expressão passou a simbolizar a essência da Anapolina: um clube resiliente, irreverente e combativo, capaz de transformar dificuldades em motivação e de fazer da superação uma de suas maiores marcas históricas.
As transformações econômicas e as exigências do mercado do futebol profissional sufocaram as finanças dos clubes locais na virada da década. Diante de uma grave crise financeira que ameaçava a sobrevivência do esporte na cidade, as diretorias de Anapolina, Anápolis FC e Ipiranga tomaram uma decisão drástica em 1970: a fusão das três agremiações.
Desta união de forças nasceu o Grêmio Esportivo Anapolino, fundado com o objetivo de concentrar investimentos e criar uma potência única para rivalizar com os clubes da capital no Campeonato Goiano. O Grêmio disputou o torneio estadual nos anos de 1970 e 1971.
A estratégia institutional, contudo, esbarrou na paixão popular. O microclima de rivalidade da cidade era forte demais; o torcedor sentia falta do peso da camisa vermelha e dos duelos tradicionais contra o Anápolis. O novo clube híbrido não conseguiu despertar a simpatia e o entusiasmo dos locais, que se recusaram a abandonar suas identidades originais em nome da nova bandeira. Sem apoio popular, o Grêmio Esportivo Anapolino foi oficialmente desativado ao final do segundo campeonato disputado, em 1971, forçando o retorno das forças tradicionais aos seus respectivos lugares de direito na história.